Em “O Duplo”, a cena em que Goliádkin realiza a admiração solitária aos setecentos e cinquenta rublos configura um ritual fetichista de compensação alienante, em que o dinheiro transcende sua função econômica para se tornar um totem de poder psíquico e social. Dostoiévski explora aqui a reificação das relações humanas sob o capitalismo nascente, transformando o valor monetário em mediador metafísico de identidades fraturadas. Os rublos não são meros objetos de cobiça, mas símbolos encarnados de reconhecimento social que Goliádkin projeta como antídoto para sua invisibilidade existencial.
O ato solitário de contemplação do dinheiro revela a dialética entre posse e despossuimento: enquanto Goliádkin acumula, meticulosamente, as moedas, sua fixação ritualística demonstra justamente o vazio que o dinheiro tenta preencher. Cada rublo organizado torna-se espelho de sua própria fragmentação identitária, refletindo não riqueza material, mas a pobreza de um eu que só se completa através da mediação monetária.
Esse fenômeno pode ser denominado fetichismo monetário-alienante, em que o sujeito atribui ao dinheiro propriedades mágicas de cura existencial. A cena antecipa a crítica marxista ao fetichismo da mercadoria, mas com uma nuance psicológica única: o ritual não celebra o valor de troca, mas a capacidade do dinheiro de funcionar como prótese identitária para personalidades desintegradas. As moedas tornam-se objetos transicionais em um jogo de espelhos onde Goliádkin tenta reconstruir, através da acumulação numérica, a unidade perdida de seu ser.
A solidão do ato — realizado às escondidas — expõe a contradição central: o dinheiro que deveria conectá-lo ao mundo social torna-se barreira intransponível. Cada rublo contado é simultaneamente moeda de integração potencial e certificado de exclusão efetiva, encapsulando a tragédia do homem dividido entre a ânsia de pertencimento e a impossibilidade de realizá-lo através de meios meramente materiais. Dostoiévski constrói assim uma alegoria precursora da neurose capitalista moderna, em que o sujeito, em sua solidão constitutiva, transforma instrumentos econômicos em objetos de culto privado.




