A dinâmica das fusões corporativas retratada no sub-romance “Ligações”, do personagem-escritor Harold Vanner, contido na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, revela um paradoxo estrutural do capitalismo contemporâneo: a concentração monopolista gera, simultaneamente, desigualdade material e uma ilusão coletiva de prosperidade compartilhada. As megafusões descritas na obra – que criam entidades com valor superior a orçamentos governamentais – materializam o processo de centralização de capital analisado por Marx, em que a acumulação não se limita à expansão produtiva, mas avança através da absorção de concorrentes e controle oligopolista de mercados.
A “sensação coletiva de sucesso” mencionada no texto funciona como ideologia econômica: a grandiosidade das corporações transfigura-se em símbolo de progresso nacional, mesmo quando sua riqueza concentra-se em estruturas piramidais. Nesse sentido, a racionalidade técnica das fusões (aumento de eficiência, sinergias) mascara seu papel na acentuação das assimetrias sociais. A fé generalizada numa economia em franca ascensão – mantida até por quem está excluído dos ganhos – expõe como o capital financeirizado produz narrativas de sucesso desconectadas da realidade material, transformando a própria concentração de riqueza em prova performativa do vigor econômico.
A ironia histórica reside no fato de que tais monopólios, longe de serem exceções, representam a tendência orgânica do sistema, em que a centralização do capital acelera crises de superacumulação enquanto se apresenta como solução para elas. A obra “Confiança” captura, desse modo, a dialética perversa entre escala corporativa e percepção social: quanto mais desproporcionais as empresas, mais sua mera existência é lida como triunfo civilizatório, naturalizando a apropriação desigual dos frutos do crescimento.




