No sub-romance “Minha Vida”, autobiografia fictícia de Andrew Bevel, contida na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, expõe-se o que podemos denominar Mito da Autonomia Mercantil Incontaminável – a crença ideológica de que qualquer regulação estatal representa uma corrupção da “pureza” dos mercados, interpretada como ameaça à liberdade econômica. Bevel, ao se opor ao Federal Reserve desde o Pânico de 1907 (evento histórico que o romance ressignifica ficcionalmente), constrói uma narrativa em que a intervenção governamental equivaleria a “grilhões”, metaforizando o controle regulatório como escravidão moderna. Sua defesa da autorregulação financeira, porém, revela-se uma falácia histórica: ao celebrar três décadas de suposta validação de suas teses, ele ignora deliberadamente que crises como a de 1929 foram exacerbadas precisamente pela falta de mecanismos de controle.

Essa mitologia opera por dualidades enganosas: Bevel contrasta a “sabedoria” dos magnatas (ele próprio) com a “incompetência” dos reguladores, transformando a acumulação de capital em prova de virtude técnica e moral. A ironia reside no fato de que sua oposição ao Federal Reserve mascara o verdadeiro temor – a perda de monopólio sobre a engenharia financeira. Quando descreve a instituição como “fundição de grilhões”, projeta nos mecanismos de controle social os mesmos processos de dominação que seu truste exercia sobre o mercado, porém dissimulados sob retórica de defesa da liberdade.

Diaz desmonta esse mito através da estrutura metalinguística do romance: a autobiografia de Bevel é seguida por contranarrativas que expõem como a “autonomia mercantil” defendida por ele dependia de subsídios estatais, cartelizações ilegais e exploração trabalhista. A suposta vitória histórica contra a regulação revela-se, assim, uma construção discursiva – não um triunfo do livre mercado, mas a consolidação de um feudalismo financeiro em que magnatas como Bevel substituíram o Estado pela governança econômica. O “grilhão” que ele denuncia é, na verdade, o espelho invertido de suas próprias correntes: aquelas que amarram a sociedade aos caprichos de uma oligarquia autoproclamada guardiã do progresso.