No sub-romance “Minha Vida”, de Andrew Bevel, contido na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, comenta-se um fenômeno que pode ser denominado Mito da Harmonia Capitalista, uma narrativa ideológica que associa o lucro privado ao bem coletivo como relação causal inevitável, desde que mediada por uma suposta “responsabilidade” ética. A afirmação de Andrew Bevel – figura central cuja biografia fictícia estrutura “Confiança” – revela a autopercepção justificadora das elites financeiras, que transformam a acumulação de riqueza em ato moral mediante retórica de virtude empresarial. O sub-romance espelha a doutrina do laissez-faire do início do século XX, ambiente propício para a defesa de que magnatas como Bevel (inspirado em figuras históricas como John D. Rockefeller) apresentam-se como arquitetos do progresso social através de filantropia seletiva e discursos sobre mérito individual.
Essa construção narrativa, entretanto, é desmontada pela estrutura metaficcional do romance de Hernan Diaz. A suposta “responsabilidade” evocada por Bevel mascara mecanismos de exploração sistêmica: trusts financeiros que monopolizavam mercados, práticas de especulação predatória e a naturalização da desigualdade como fruto de escolhas individuais. A ironia reside no fato de que o “bem comum” propagado depende da manutenção de hierarquias sociais imutáveis, em que a virtude do empreendedor confunde-se com a perpetuação de seu poder – um ciclo apresentado como benéfico, mas que, na prática, consolida assimetrias estruturais.
A obra expõe como essa mitologia opera através de duplos registros: a autobiografia glorificada de Bevel contrasta com documentos históricos e vozes marginalizadas que revelam o custo humano por trás da “responsabilidade” dos magnatas. Diaz demonstra que a suposta harmonia entre lucro e bem comum é menos uma realidade econômica do que um dispositivo retórico para legitimar concentração de poder – paradoxalmente, quanto mais Bevel insiste em sua narrativa de beneficência capitalista, mais evidente se torna o caráter ficcional dessa equivalência.




