O capítulo 5 de “Memórias, Relembradas”, da personagem-escritora Ida Partenza, contida  na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, expõe o que se pode nomear como Ontologia do Capital Ficcional – a construção social que transforma abstrações financeiras em realidade hegemônica, dissolvendo a materialidade concreta em camadas de representação simbólica. A crítica do pai de Ida, ao definir o dinheiro como “bem fantasioso” e o capital financeiro como “ficção de uma ficção”, revela o paradoxo central do capitalismo tardio: sistemas baseados em promessas de valor futuro (ações, títulos) adquirem materialidade política, enquanto bens tangíveis são subjugados a essa lógica especulativa. Sua aversão a Wall Street – “miragem” de aço e concreto – não nega a fisicalidade dos prédios, mas denuncia a metafísica do mercado que os habita, onde cifras em telas determinam destinos humanos.

A contradição entre sua rejeição ao marxismo (“tijolos de significado”) e a apropriação da análise marxiana sobre o fetichismo da mercadoria ilustra a tensão entre crítica e pragmatismo. Enquanto condena a redução religiosa das explicações totalizantes, ele próprio opera uma dialética materialista ao vincular a alienação consumista ao ciclo de produção-exploração: os trabalhadores sustentam o sistema que os desumaniza, comprando com salários indignos os mesmos bens que fabricam. Sua esperança na Grande Depressão como despertador revolucionário ecoa a crença em colapsos sistêmicos como reveladores de verdades ocultas – porém, ao contrário de Marx, não vislumbra um sujeito histórico coletivo, mas uma iluminação individual sobre a natureza tautológica do capital, em que valor gera valor em circuito fechado, divorciado de utilidade social.

A metáfora do dinheiro como “ficção universal” que não se come nem veste, mas tudo representa, sintetiza a crítica à economia de signos. O capital financeiro, nessa visão, é hiper-realidade: derivativos de derivativos, algoritmos que negociam expectativas sobre expectativas. A imagem de Manhattan como paisagem fantasmagórica – sólida em concreto, etérea em significado – expõe o núcleo da tese: a financeirização não é mero mecanismo econômico, mas epistemologia violenta que redefine o que conta como real. Diaz, através da prosa fragmentada de Ida, sugere que desmontar essa ficção requer mais que análise econômica – exige desconstruir narrativas que naturalizam a abstração como destino inevitável, revelando as engrenagens literárias (metáforas, retóricas, silêncios) que sustentam edifícios invisíveis.