No episódio de “O Duplo” em que Goliádkin troca notas de maior valor por menores, mesmo perdendo dinheiro, revela-se um ritual de compensação psicossimbólica, em que a quantidade física de cédulas opera como simulacro de plenitude existencial. A ação configura um fetichismo da materialidade monetária, no qual o protagonista substitui o valor de uso do dinheiro por sua presença tátil e visual, transformando a carteira repleta em espelho de uma identidade socialmente esvaziada. A perda financeira é compensada pelo ganho ilusório de volume existencial — cada nota adicional funciona como certificado concreto de existência em um mundo que, sistematicamente, ignora-o.

Esse mecanismo pode ser denominado quantofrenia alienante, neologismo que funde a obsessão por quantificação (do latim quantum) com a fragmentação psíquica (do grego phrenos). Nele, a massa de papéis monetários converte-se em prótese identitária: quanto mais cédulas, maior a sensação de ocupar espaço no tecido social, ainda que esse acúmulo represente empobrecimento real.

A cena expõe a dialética perversa entre posse e despersonalização: ao encher a carteira de notas menores, o protagonista não aumenta seu poder aquisitivo, mas amplifica simbolicamente sua frágil autoimagem. Cada cédula torna-se um alter ego em miniatura, espelhando sua condição de ser socialmente duplicado e simultaneamente esvaziado. A volúpia íntima descrita — o prazer mórbido em manuseá-las — revela a transformação do dinheiro em objeto transicional, mediador entre sua consciência fragmentada e o mundo hostil que o rejeita.

Esse fenômeno articula-se com a análise da forma literária dostoievskiana como mimese da mercadoria: assim como o valor de troca encobre relações sociais, as notas acumuladas por Goliádkin mascaravam seu verdadeiro drama — a impossibilidade de ser reconhecido como sujeito integral. A quantofrenia alienante revela-se, assim, sintoma precursor da neurose moderna: a substituição de valores humanos por indicadores numéricos de existência.