No romance “O Senhor Prokhártchin”, de Fiodor Dostoiévski, a avareza do protagonista transcende a mera economia prática, configurando-se como uma patologia existencial enraizada no medo arquetípico da finitude e do vazio. Sua relação obsessiva com os objetos – como a recusa em compartilhar o bule ou a restrição alimentar autoimposta – revela uma cosificação da segurança emocional, em que as posses materiais funcionam como barreiras simbólicas contra a percepção da fragilidade humana. Essa avareza não se limita à acumulação racional de recursos, mas opera como um ritual de controle sobre um mundo caótico. Cada moeda guardada, nesse caso, é um exorcismo simbólico contra a ameaça do desamparo existencial.

Prokhártchin não venera o dinheiro pelo seu valor utilitário, mas como fetiche metafísico – substituto concreto para angústias abstratas. Seu apego desmedido às posses é, paradoxalmente, uma forma de negociação com a mortalidade, como se a posse estática de objetos pudesse congelar o fluxo inexorável do tempo e adiar o confronto com a própria condição efêmera. Na avareza patológica descrita no texto, pode-se afirmar que, enquanto o apego saudável liga-se a relações vivas, o personagem transfere sua capacidade de vinculação para artefatos inanimados, convertendo-os em próteses existenciais. Esse mecanismo ecoa observações contemporâneas sobre como o materialismo compulsivo pode mascarar défices de significado transcendental, transformando a economia doméstica em teologia particular.