Na obra O Médico e o Monstro ( O Estranho Caso do Dr.Jekyll e Mr. Hyde), de Stevenson, a dualidade entre Henry Jekyll e Edward Hyde transcende o conflito psicológico para revelar uma alegoria sobre as fissuras socioeconômicas da era vitoriana. Stevenson constrói uma metáfora poderosa ao associar Jekyll à racionalidade científica e ao prestígio burguês, enquanto Hyde encarna a selvageria relegada aos subterrâneos urbanos. Essa cisão reflete a estratificação radical de uma sociedade industrializada, em que a prosperidade da elite — simbolizada pelo médico erudito e bem-vestido — dependia da exploração de massas invisíveis, representadas pela figura bestial que habita becos lamacentos e fábricas insalubres.
A Londres de Hyde, com seus cortiços e vícios, é o avesso obscuro do progresso celebrado pela aristocracia. Se Jekyll personifica o culto vitoriano à razão e ao controle, Hyde materializa os medos de uma classe dominante que, ao mesmo tempo que lucrava com a mecanização desenfreada, temia a rebelião dos “monstros” que seu próprio sistema gerava: operários empobrecidos, marginalizados pelo acúmulo de riqueza nas mãos de poucos. A transformação química do protagonista, portanto, não é apenas uma experiência científica, mas um ato de negação — uma tentativa de segregar, no plano individual, a contradição entre a ética pública e a ganância privada que sustentava o capitalismo industrial.
Stevenson critica, assim, a hipocrisia de uma ordem econômica que glorificava a moralidade cristã enquanto perpetuava condições desumanas de trabalho. A incapacidade de Jekyll de controlar Hyde ilustra o fracasso dessa dissociação: o monstro econômico, uma vez liberto, corrói as bases da própria civilização que o criou. A obra, ao final, expõe como a busca por riqueza e inovação — assim como o experimento do médico — pode desencadear forças autodestrutivas quando divorciada da responsabilidade social.




