No sub-romance “Ligações”, do personagem-escritor Harold Vanner, contido na obra “Confiança” de Hernan Diaz, podemos analisar a financeirização como um processo de desmaterialização do valor, em que ativos tangíveis são convertidos em instrumentos financeiros abstratos. O personagem Benjamin, ao vender precipitadamente a hacienda cubana herdada sem inventário ou avaliação adequada, simboliza a ruptura com a economia produtiva tradicional (ligada à terra, bens físicos e gestão direta) em favor da lógica especulativa. A decisão de liquidar um patrimônio concreto para investir na bolsa de valores através de intermediários anônimos reflete a dinâmica central da financeirização: a primazia dos circuitos financeiros sobre a economia real, em que o capital busca rentabilidade não na produção, mas na circulação de papéis e derivativos.

Esse movimento ilustra como a financeirização opera através da intermediação despersonalizada e da fetichização do capital, em que o dinheiro parece gerar mais dinheiro por mecanismos autônomos, dissociados do trabalho humano ou dos processos produtivos. A venda abaixo do preço, ignorando conselhos técnicos, revela ainda o caráter destrutivo desse processo: a subvalorização de ativos reais alimenta a acumulação financeira de curto prazo, muitas vezes em detrimento do desenvolvimento econômico sustentável.