No sub-romance “Ligações”, do personagem-escritor Harold Vanner, contida na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, constrói-se uma crítica afiada à dinâmica psicológica coletiva que transforma agentes econômicos em vítimas passivas diante de crises. Os especuladores ilustram a dialética entre desculpabilização individual e responsabilização sistêmica. Inicialmente, atribuem seus ganhos à astúcia pessoal, enquadrando-se como arquitetos racionais do próprio sucesso. Essa narrativa de autossuficiência, porém, desintegra-se com a queda da bolsa em 1929, quando, rapidamente, reposicionam-se como vítimas de um sistema “com falhas profundas, talvez até corrupto”. O processo revela um mecanismo de dissociação cognitiva: enquanto lucravam, celebravam-se como gênios financeiros; ao perderem, transferiam a culpa para estruturas impessoais, como se o mercado fosse uma força natural incontrolável, semelhante a terremotos ou furacões.

Essa transmutação de papéis — de agente ativo a vítima passiva — opera através de mecanismos psicológicos profundos. A “epidemia de medo” mencionada na obra reflete o viés da aversão à perda, em que a dor das perdas supera emocionalmente o prazer dos ganhos anteriores, levando a uma reação desproporcional de negação de responsabilidade. Simultaneamente, a “incapacidade de reagir a chamadas de margem” expõe a ilusão de controle: durante a alta, acreditavam dominar variáveis complexas, mas, na crise, reconhecem (ou fingem reconhecer) sua impotência diante de mecanismos maiores.

Por trás dessa dualidade, Diaz expõe a esquizofrenia ética do capital especulativo: a mesma lógica que glorifica o individualismo nos tempos de bonança recorre a coletivizações abstratas nas quedas. O “frenesi de vendas impulsionado pelo pessimismo” não é visto como soma de decisões individuais, mas como entidade autônoma — paradoxalmente, a agência humana só é reconhecida nos ganhos, nunca nas perdas. Essa cisão revela como narrativas econômicas são instrumentalizadas para preservar identidades individuais: o sucesso é pessoal, o fracasso é sistêmico, e a responsabilidade torna-se um derivativo negociável conforme a conveniência.