O fenômeno do Protecionismo Autofágico – comentado no sub-romance “Minha Vida”, contido na obra “Confiança”, de Hernan Diaz – é um mecanismo em que medidas governamentais, concebidas para proteger interesses nacionais, corroem as próprias estruturas que pretendiam salvaguardar, num processo de autoconsumo econômico. O embargo de 1807, idealizado por Jefferson como espada contra a Grã-Bretanha, transformou-se em faca cega enterrada no flanco da economia americana. Ao interditar rotas marítimas e bloquear trocas comerciais, a política não estrangulou o inimigo, mas asfixiou os pulmões produtivos domésticos: campos transformaram-se em cemitérios de grãos, armazéns viraram mausoléus de mercadorias, e o suor dos agricultores evaporou em poeira estéril.

A autofagia manifesta-se na contradição visceral entre retórica e realidade. Enquanto o discurso oficial celebrava o embargo como escudo patriótico, seu efeito prático equivalia a uma sangria coletiva — drenagem de riqueza que deixou a nação anêmica. A dependência mútua entre indústria britânica e matérias-primas americanas revelou-se assimetria fatal: os EUA, ao cortarem o fluxo de recursos, descobriram-se mais vulneráveis que o alvo visado, como se amputassem o próprio membro para privar o adversário de um dedo. William, ao diagnosticar a “situação insustentável”, identifica o núcleo do paradoxo — políticas de força convertidas em instrumentos de autossabotagem, em que o Estado, na tentativa de ser cirurgião geopolítico, torna-se paciente em mesa de operações.

Esse protecionismo devorador opera em dois tempos: primeiro, petrifica a economia em gesto defensivo (congelamento de exportações); depois, desencadeia necrose social (falências em cadeia, desespero popular). A ironia histórica reside na cronologia — o embargo, concebido como arma de guerra econômica, antecipa em dois séculos lógicas contemporâneas de sanções recíprocas que frequentemente ricocheteiam contra seus idealizadores. A lição do Protecionismo Autofágico permanece atual: na arena globalizada, interdependências criam teias frágeis onde golpes desferidos contra outros podem enredar o agressor em fios invisíveis de consequências não mapeadas.