O capítulo VII do sub-romance “Minha Vida”, de Andrew Bevel, contido na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, explicita o que podemos denominar Hegemonia do Cálculo Mercantil – a concepção ideológica que reduz toda a experiência humana a uma lógica de transações econômicas, transformando a subjetividade em mera extensão do mercado. Bevel, ao descrever atos cotidianos como “troca de descanso por lucro” ou “renúncia a horas lucrativas”, opera uma metafísica do capital em que até o repouso noturno se converte em investimento produtivo. Sua tese central – a de que “nossa existência gira em torno do lucro” – não é apenas uma observação sociológica, mas uma ontologia que coloniza a própria noção de humanidade: ao equiparar instinto de sobrevivência a desejo de acumulação, ele naturaliza a competição capitalista como lei biológica universal.
Essa visão totalizante, porém, revela-se uma ficção autorreferencial. Quando Bevel afirma que “todos nós desejamos mais riqueza” por imperativo científico, está projetando no campo da natureza (através da analogia com seres vivos que “prosperam ou enfraquecem”) um constructo histórico específico: a racionalidade instrumental do capitalismo industrial. A suposta “lei fundamental” que ele invoca é, na verdade, uma tautologia – transforma efeitos do sistema econômico vigente (a precarização que obriga à hiperprodutividade) em causas naturais. Diaz expõe essa circularidade através da própria estrutura do romance: a autobiografia de Bevel é seguida por narrativas que desmontam sua retórica, mostrando como a “inevitabilidade” das leis econômicas serve para mascarar exploração e desigualdade.
A ironia radical do texto reside na contradição entre forma e conteúdo. Enquanto Bevel proclama a onipresença das transações mercantis, sua escrita – ato criativo por excelência – escapa à lógica do lucro que ele supostamente universaliza. Essa tensão revela o cerne da crítica de Diaz: a existência como tradução de processo econômico não é um destino biológico, mas um projeto político que requer constante reiteração narrativa. O próprio romance, ao multiplicar perspectivas, demonstra que a realidade sempre excede os cálculos reducionistas do capital – por mais que o discurso hegemônico tente aprisioná-la em suas equações.




