O capítulo 5 do sub-romance “Memórias, Relembradas”, da personagem-escritora Ida Partenza, contido na obra “Confiança”, de Hernan Diaz, expõe o que se pode nomear como Teatro da Validação Coletiva – um sistema no qual abstrações financeiras e narrativas sociais são legitimadas pelo consenso universal, apesar de sua natureza intrinsecamente fictícia. A reflexão do pai de Ida, ao equiparar dinheiro, religião e história a “ficções” sustentadas por pactos sociais, revela o mecanismo pelo qual o capitalismo transforma ilusões em alicerces da realidade. O dinheiro, nessa perspectiva, opera como metáfora materializada: uma entidade que, embora desprovida de valor intrínseco, adquire poder concreto através da crença unânime. Sua crítica à religião e às massas “contentes com a própria sina” desvela como narrativas dominantes – sejam econômicas, políticas ou espirituais – são armas de manutenção de poder, capazes de mascarar exploração sob véus de normalidade.

A analogia entre “realidade” e “ficção com orçamento ilimitado” sintetiza a noção de que a hegemonia capitalista se sustenta não por verdade objetiva, mas por capacidade de investimento em sua própria mitologia. Quando afirma que “a realidade é financiada por mais uma ficção”, evidencia o circuito tautológico do capital: o dinheiro, ficção primária, gera realidades derivadas (mercados, bolsas, créditos) que retroalimentam sua autoridade. A referência a Marx – “o dinheiro não é uma coisa, e, potencialmente, todas as coisas” – amplia a crítica ao fetichismo da mercadoria, mostrando como a abstração monetária dissolve relações humanas em transações, convertendo qualidade em quantidade, afeto em dívida.

A contradição apontada entre consenso monetário e divergências em “credo ou afiliações políticas” ilustra o paradoxo da ficção necessária: enquanto discordamos sobre narrativas identitárias, abraçamos sem questionar a narrativa-mãe que permite todas as outras – a do valor abstrato como mediador universal. A imagem do dinheiro como “centro de tudo” ecoa a ideia de que o capital financeiro não é mero sistema econômico, mas linguagem totalizante, um código que redefine a própria percepção do real. Wall Street, na visão do personagem, torna-se assim um palco onde atores negociam promessas, sustentados pela cenografia de arranha-céus que escondem, em seu núcleo, o vazio semiótico de derivativos e especulações.

Essa análise sugere que desconstruir o capitalismo exige mais que reformas econômicas: demanda expor as **estruturas narrativas** que transformam ficções em fatos através de repetição ritualística (transações, contratos, juros). A esperança depositada na Grande Depressão como reveladora de “verdades históricas” falha, porém, em reconhecer que o próprio colapso é assimilado pelo sistema como mais um capítulo de sua mitologia autorregenerativa. O texto propõe, assim, que a verdadeira revolução reside não na substituição de uma ficção por outra, mas na capacidade de ler criticamente os roteiros invisíveis que dirigem o espetáculo social.