Na entrada do quarto círculo do Inferno, encontra-se Pluto, deus que representa a riqueza para a mitologia grega: “Ali’stá Pluto, o nosso grande imigo” (ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo: eBooksBrasil, 2003, p.59). A apresentação de Pluto pelo poeta Alighieri encontra ecos na estratégia de rebaixamento de entidades não vinculadas à tradição judaico-cristã. Estratégia essa reforçada em tempos medievais e justificadas em passagens bíblicas como o quarto versículo do capítulo seis do primeiro livro da Bíblia, Gênesis, que, muitas vezes, são interpretadas como um processo de rebaixamento dos semideuses da Grécia Antiga: “Naquele tempo viviam gigantes na terra, como também daí por diante, quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são os heróis, tão afamados nos tempos antigos” (BÍBLIA. São Paulo: Salve Rainha, 2019, p.7), ou ainda o capítulo cinco do Evangelho segundo São Marcos, que comenta um caso de possessão e exorcismo realizado por Cristo e que pode ser entendido como um processo de rebaixamento dos demônios da cultura grega antiga – seres intermediários entre os homens e os deuses que frequentemente passeiam pelos sarcófagos e realizam atividades acompanhando os mortais como se mortais fossem.
No caso de Pluto, deve-se compreender que ele nasce da mãe terra Deméter, deusa da colheita, portanto o entendimento sobre a riqueza (que Pluto representa) no mundo grego antigo e mitológico advém, inicialmente, dos resultados do cultivo da agricultura – uma visão muito próxima da obra Econômico, de Xenofonte (obra produzida no século IV a.C.), que reflete o mito e valoriza os serviços agrários como fundamentais para a geração de riqueza.
Como uma variação do mito, o Pluto da peça homônima de Aristófanes já é uma alegoria próxima do comércio e do elevado poder do dinheiro – alegoria que produz uma perigosa ambiguidade, pois, se, por um lado, a riqueza pode combater os males da pobreza e favorecer a prosperidade dos homens, por outro, conforme o próprio deus: “quando os homens me possuem verdadeiramente e ficam ricos, a maldade deles ultrapassa enormemente todos os limites da compostura” (ARISTÓFANES. Obra Completa. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.628). É esse o Pluto da Antiguidade Clássica que Dante Alighieri destaca, pois, nessa variação, a riqueza (Pluto) estimula a desmedida e, para o cristão, o pecado. O deus Pluto na versão d’A Divina Comédia é duplamente um inimigo: é uma entidade divina não pertencente ao culto da cristandade e é o dinheiro que corrompe o homem levando-o a pecar por avareza ou por prodigalidade.




