Em relação ao ato de esmolar associado à vida dos que prestam serviços religiosos, o teólogo Tomás de Aquino comenta ser lícito que sejam realizadas algumas ofertas no sentido do sustento daqueles que administram e realizam os cultos sagrados ou ainda que tais sacerdotes possam ser materialmente protegidos por príncipes ou fieis mais abastados, mesmo que não exerçam trabalhos manuais. Contudo se torna ilícito aceitar tais esmolas se o religioso abandonar a atividade sacerdotal ou se o bem ofertado é desviado para o estímulo à ociosidade e ao conforto da classe eclesiástica, subtraindo-os das obras necessárias aos mais necessitados: “Mas procedem ilicitamente os religiosos que, sem nenhuma necessidade e em troca de nenhum serviço prestado, pretendam, ociosos, viver das esmolas que foram dadas para os pobres.” (AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Permanência, 2018, p.2861)

Essa reflexão de Tomás de Aquino a respeito do pecado daquele que pede ou aceita esmola sem que haja real necessidade combinada à condenação dos religiosos que captam oferendas para o próprio prazer e esquecem da função missionária de pregação e caridade junto aos pobres parece encontrar ressonância, como antimodelo de conduta cristã nesse quesito, nos Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer.

Especificamente, em O conto do beleguim, Chaucer apresenta uma caricatura do ideal almejado pelo comportamento cristão – tal atmosfera torna-se ainda mais cômica quando as autoridades religiosas inspiram os antimodelos por elas tão combatidos. Nesse conto, narra-se a história de um frade que se valia de uma mendicância e uma disfarçada pobreza para pedir donativos com um discurso hipócrita de falsa carestia. No enredo, os frades colocavam-se em distinção dos padres por sua serventia humilde aos mais pobres; entretanto, contraditoriamente, seus atos revelam-nos como verdadeiros parasitas que sequer orações prestavam àqueles que ofertavam donativos. No decorrer da história, um velho senhor, já irritado com o constante movimento parasitário dos frades, pede que aquele que agora exige donativos pegue um dinheiro em seu bolso traseiro para dividir entre eles. No entanto o soldo que o ancião doou para o frade acaba por ser uma barulhenta e fétida flatulência. Ao final da narração, como uma forma ainda mais ácida de crítica, o beleguim conta que um grupo de frades tenta, por meio de exercícios de debates e análises sofisticadas e abstratas, desvendar como ocorre a divisão daquilo que, sendo uma flatulência, é aparentemente indivisível – uma sátira feroz que Chaucer atribui à intelectualidade eclesiástica (inclusive ao modelo e à forma de pensar do próprio Aquino), tão distante dos problemas reais e, desse modo, tão inútil.

“O velho diz: ‘Então meu caro frade, / Sobre o meu lombo a tua mão afunda; /  Vai apalpando até debaixo da bunda / E prometo que encontrarás ali / Um pequeno tesouro que escondi’. // E o frade pensa: ‘Qual será o segredo?’ / Feliz, a mão enfia lá no rego / Do velho, e quando a mão ao cu alcança, / O velho, preparado, sem tardança, / Solta um peido brutal e ritombante / – Não soltaria estrondo semelhante / Um cavalo puxando um carroção!” (CHAUCER, Geoffrey. Contos da Catuária. São Paulo: Penguin Classics; Companhia das Letras, 2013, p.391-392)