Ainda que Dante Alighieri, na obra A Divina Comédia, tenha seguido muitas das orientações de São Tomás de Aquino e também o tenha reverenciado como personagem mais sábio entre os teólogos a guiá-lo pela quarta esfera do Paraíso, há discordâncias quanto à gravidade da avareza (desmedida ao reter recursos) e da prodigalidade (desmedida ao gastar recursos) no momento em que o poeta representa os pecadores no quarto círculo do Inferno. Alighieri coloca os dois tipos de pecadores no mesmo nível de castigo, no mesmo patamar do desvio do Sagrado e da correspondente cena de tortura. Possivelmente, Dante Alighieri realizou a equivalência entre o pecado da avareza e o da prodigalidade não por desconhecimento dos estudos elaborados por São Tomás de Aquino, mas porque a construção alegórica desenvolvida na obra d’A Divina Comédia exigiu, para atingir uma ornamentação esteticamente mais impressionante, algum sacrifício da mensagem teológica.

N’A Divina Comédia, o castigo elaborado para os avarentos e para os pródigos é, com os peitos nus, fazerem rolar eternamente grandes pesos em direções opostas. Por estarem em uma trajetória circular, os dois grupos sempre se encontram no momento em que as pedras chocam-se. Quando isso ocorre, os dois grupos trocam injúrias entre si em meio às queixas ofensivas a respeito do porquê uns, de um lado, guardam e do porquê outros, do lado oposto, gastam. Partindo da ideia de que o vestuário marca uma hierarquia e uma determinada distinção no plano social, a arquitetura da cena pensada por Dante Alighieri, ao conceber a nudez do peito em ambos os grupos, inutiliza a prática da retenção ou da gastança das riquezas como forma de demonstração de privilégio ou de vaidade sociais, estando agora em um contexto espiritual. O poeta também remonta uma antiga cena da tradição narrativa mitológica grega: o mito de Sísifo. É nítida a correspondência entre a inutilidade dos atos dos pecadores no castigo do Inferno e a do serviço de Sísifo, punido pelos deuses olímpicos a fazer rolar uma pedra ao topo de uma colina que sempre despenca para baixo, preservando-o nesse eterno trabalho. Em verdade, Dante Alighieri concebe um grau ainda maior de complexidade a respeito do sentido da inutilidade: enquanto, na mitologia grega, o serviço de Sísifo é caracterizado como infrutífero após a cena da imposição do castigo, na cena d’A Divina Comédia, a inutilidade dos trabalhos de rolagem das pedras entre os avarentos e os pródigos ocorre no tempo da tortura porque essa inutilidade já existia no tempo anterior à morte. Ou ainda melhor de ser dito, o tempo posterior à morte, que deve ser cultivado com atos úteis ao Sagrado na anterioridade da vida terrena, não encontra qualquer serventia em práticas de avareza ou de prodigalidade e, por isso mesmo, é que ocorre a condenação de tais pecadores a uma eternidade de tarefas estéreis.

Almas em cópia, nunca vista de antes, / Fardos de um lado e de outro, em grita ingente, /  Rolavam com seus peitos ofegantes. // Batiam-se encontrando rijamente, / E gritavam depois, atrás voltando: / “Por que tens?” “Por que empurras loucamente?” // Assim no tetro círc’lo volteando / Iam de toda parte ao ponto oposto, / Por injúria o estribilho apregoando. // Nos semicírc’los novamente rosto / Faziam, té o embate reiterarem. / Eu, me sentindo à compaixão disposto, // “Quem são? Que razão há para aqui estarem?” /  Ao mestre disse – “À esquerda os colocados / Clérigos são para tonsura usarem?” // “Da mente sendo vesgos, transviados” / Tornou – “andaram na primeira vida, / Sempre os bens aplicando desregrados. // Quem seus clamores ouve não duvida: / Levantam grita aos termos dois chegados, / Onde oposta os separa a culpa havida: // Os que então de cabelos despojados / Clérigos, papas, cardeais hão sido, / Pela nímia avareza subjugados”. – (ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo: eBooksBrasil.com, 2003. p.61-62)